Linkedin

Uber: Um desespero para a disruptura?

21 de outubro de 2016

Terça-feira, 11 de outubro, dia de levar o carro para revisão. Preciso dar andamento nas atividades do dia a dia. Eis que acesso ao aplicativo pelo meu smartphone e aguardo ansiosamente pelo meu UberX. Não são mais do que 4 minutos para o carro estacionar à minha frente.

-Boa tarde Sr. Leonardo!

-Opa! Tudo bem?

-Seja bem-vindo ao Uber! Sou o motorista que irá te conduzir ao seu destino.

-Maravilha!

-Aceita uma bala?

-Sim, obrigado!

-Gostaria de uma água para acompanhar?

-Não, está tranquilo amigo, obrigado!

O horário é de pico e o trânsito não parece estar muito amistoso. Mas não é necessário a fadiga, pois o serviço utiliza o Waze, um aplicativo bastante útil para nos livrar dos intempéries do tráfego das grandes metrópoles. O motorista inicia uma conversa amigável, e nesse meio tempo me distraio com o assunto e mal percebo que levei apenas 20 minutos para chegar ao meu destino. Não me preocupo com o pagamento, pois ele será descontado diretamente no meu cartão de crédito. O único detalhe do qual não posso deixar passar batido, é de dar a minha avaliação ao final, pois isso garantirá a melhoria da qualidade no serviço e evitará possíveis desgostos futuros com a atividade crescente do Uber. Certo? Não tão certo assim. Nos último tempos, tenho acompanhado alguns relatos de pessoas que utilizaram o serviço Uber e, ao que me parece, nem todos estão com a mesma sorte de poder usufruir de um atendimento tão qualificado quanto a promessa inicial desse mercado.

Assim como toda boa ideia nasce de uma necessidade recorrente, com o Uber não foi diferente. Avaliada hoje em mais de US$ 60 bilhões, a startup americana surgiu de uma carência muito comum que enfrentávamos até então: a pouca ou rara disponibilidade de taxistas para atender a demanda. Dois amigos, Travis Kalanick e Garrett Camp, acabavam de participar de um evento de tecnologia e empreendedorismo em Paris, encaravam uma noite fria e com nevasca na cidade luz. Para a surpresa deles, nenhum serviço de táxi estava disponível naquela noite, foi então que tiveram a brilhante ideia de conectar pessoas à motoristas particulares com apenas um toque na tela do smartphone, de forma segura e mais confortável. Ao retornarem para San Francisco, puderam trabalhar para amadurecer a ideia, e em março de 2009 a empresa foi fundada, inicialmente chamada de “UberCab”. Mas somente em julho de 2010, o aplicativo que conhecemos por localizar o passageiro através de um GPS, foi lançado oficialmente. A princípio, a proposta era trabalhar com carros mais executivos, como Mercedes-Benz S550 e Cadillac Escalade, oferecendo um serviço mais premium, assim como táxis de luxo, e nesse contexto, as pessoas chegavam a pagar até cinco vezes mais pela utilização. O sucesso do Uber nessa época, foi ocasionado principalmente pela praticidade e pelo conforto que o serviço oferecia. Solicitar um carro pelo aplicativo do seu celular, fazer um trajeto confortavelmente e não precisar se preocupar com o dinheiro na carteira ao final da corrida, era a grande mágica do negócio. Em 2012, a empresa lançou o UberX, expandindo ainda mais o leque de possibilidades, pois qualquer pessoa habilitada e proprietária de um veículo, poderia se tornar um motorista oficial do Uber. À partir daí, começaram as rixas e todas as discussões que conhecemos acerca do assunto.

Particularmente, até o momento não tive nenhum contratempo ou aborrecimento com o serviço Uber, pelo contrário, sempre fui bem atendido e sou defensor da inovação, pois acredito que mudanças são bem-vindas quando são para transformar o mercado e oferecer uma perspectiva nova sobre um serviço ou produto que está ultrapassado. Mas como bom observador, não poderia deixar passar despercebido algumas avaliações e opiniões não tão simpáticas à respeito desse serviço. Se você digitar no Google “Notícias Uber”, vai se deparar com uma infinidade de reportagens favoráveis e desfavoráveis à essa atividade, como essa matéria da Folha de São Paulo.

uber_folha

A reportagem faz menção à uma história de um passageiro que solicitou o serviço na madrugada, para ir até a maternidade acompanhar o nascimento de um sobrinho, e por um descuido do motorista do Uber que o transportava, acabou dormindo ao volante e bateu o veículo em uma árvore, e isso, obviamente, fez com o que o passageiro ficasse indignado com a situação. Por sorte, nenhum ferido, mas o susto foi grande e esse não se trata de um relato único. Outras situações semelhantes têm ocorrido e em diversas cidades brasileiras. Em uma rápida navegação pela internet, encontrei alguns relatos de pessoas que não estão muito satisfeitas com o serviço que tem sido oferecido. Esses relatos são de comentários feitos à dois artigos publicados por um site de viagem, em que o próprio editor, narra a sua experiência com a utilização do Uber e algumas pessoas parecem compartilhar da mesma frustração.

uber-1

uber-2

uber-5

Pc Siqueira noutro dia desses, publicou um vídeo em seu canal sobre uma experiência com o Uber à respeito do uso de ar condicionado. Ele diz se constranger com os motoristas quando pede para que o ar seja ligado, pois alguns demonstram se incomodar com tal situação, apesar de ser um direito do usuário.

Os Dois Lados da Moeda

Sabe aquele típico relacionamento que começa às mil maravilhas, regado à flores e bombons, jantares românticos e horas intermináveis ao telefone, mas quando uma das partes sente que já conquistou o parceiro, deixa de se importar com os detalhes e acaba abrindo brecha para questionamentos e até mesmo para concorrência? Pois então, esse é o sentimento que paira no ar para muitas pessoas que têm utilizado o serviço Uber e começaram a questionar a qualidade e o custo benefício do serviço, se permitindo outras experiências com a concorrência, como o Cabify, recém chegado ao Brasil e que promete ser um rival da plataforma. Assim como o Uber, é um serviço que conecta passageiros à motoristas particulares, através de um aplicativo. As diferenças principais estão na usabilidade, que facilita o acesso ao serviço, pois o usuário pode se conectar via browser, não apenas pelo celular, e na previsão de valor exata que já é informada ao passageiro ao fazer a solicitação na plataforma, ou seja, independente do trânsito, da distância ou do horário da corrida, o valor a ser pago será o mesmo determinado pelo Cabify antes de você iniciar o trajeto.

O G1 produziu um infográfico para comparar o Uber com o seus principais concorrentes, sobre o serviço prestado e o valor a ser pago por ele, veja.

uber_concorrentes

Em uma breve pesquisa no Google, um anúncio pago feito pelo Uber, me chama a atenção.

uber_anuncio_google

“Seja Aprovado Rapidamente” é o que sugere o subtítulo. As informações que se tem acerca das contratações de motoristas para operarem na plataforma, é de que os únicos critérios exigidos são a habilitação para exercer atividade remunerada (EAR), documentação do carro regular, ficha criminal limpa e um seguro com cobertura APP (Acidentes Pessoais a Passageiros). Isso nos propõe que não há outro critério de seleção para ser motorista do Uber, e em alguns casos, isso pode não ser tão legal. O despreparo psicológico e até mesmo de boas condutas a serem seguidas pelos motoristas ao atender um cliente, faz toda a diferença. Na minha opinião, por ser uma multinacional do porte que é, deveria ter alguns programas de qualificação e um investimento na qualidade do atendimento, talvez até uma padronização, para evitar o burburinho que tem se formado em torno do serviço, não só aqui no Brasil, mas nos milhares de países que atua.

Se por um lado existe uma parcela de usuários insatisfeitos com alguns episódios ocorridos no Uber, por outro existe uma classe que se queixa das horas excessivas de trabalho e se mostram mais descontentes ainda com o retorno financeiro, que em alguns casos, não chega à metade da promessa divulgada pela startup, que é a dos motoristas. Alguns dizem que sofrem até pressão psicológica por parte da empresa, que ameaça os condutores de bloqueio se deixar o aplicativo desligado. Muitos reclamam da falta de apoio e afirmam que não é tão compensatório se afiliar ao Uber, pois além dos custos de manutenção com o carro, há o gasto com o combustível e ainda os 25% que precisam ser repassados à companhia, sobrando pouco ou quase nada ao final do mês para suprir as despesas pessoais. É importante ressaltar que o Uber tem a tarifa dinâmica, que eleva o valor da corrida em horários de pico e quando a oferta de carros é menor. Mas nem sempre é possível ficar a cargo dessas corridas já que as regiões mudam constantemente e o tempo gasto em cada trajeto pode impedir que o motorista realize em um curto período de tempo, um número expressivo de viagens. Percebe-se que a grande maioria das pessoas que se cadastram na plataforma é devido ao desemprego latente com a crise ou dos que precisam ter uma renda extra para conseguir suprir as necessidades e pagar as contas ao final do mês e para isso enfrentam longas jornadas de trabalho, exercendo a atividade por até 20 horas seguidas. O posicionamento da Uber à respeito desses relatos é de que os motoristas têm total liberdade sobre sua rotina e carga de trabalho e que por isso não tem qualquer poder sobre os horários que são praticados. A empresa ainda faz questão de frisar que não é a Uber responsável por contratar os motoristas, mas sim os mesmos que o fazem, pagando para isso uma taxa de utilização de 25% (UberX) e 20% (UberBlack), e por isso podem usar a plataforma de acordo com suas disponibilidades, de forma independente e autônoma, eximindo-se inclusive de qualquer obrigação com horas trabalhadas.

Algumas notícias recentes, informam que o Uber tem enfrentado sérios problemas com justiça trabalhista, por ter desligado alguns condutores sem qualquer notificação ou aviso prévio. Diversos condutores reivindicam direitos trabalhistas, e pedem uma espécie de reconhecimento de vínculo empregatício com a empresa, pois de acordo com o direito brasileiro, o desligamento da forma como tem sido feito, sem qualquer direito de defesa, não é conduta legal.

Diante de todo esse círculo, fica fácil perceber que o problema Uber, é uma faca de dois gumes. De um lado a startup que começou bem, desbravando barreiras da inovação e propiciando um novo modelo econômico, que aos poucos vem derrubando seus tijolos por se preocupar apenas com a rentabilidade e não se atentar às condições de trabalho oferecidas aos seus motoristas, e de outro o consumidor, que acaba sendo prejudicado pela promessa de um serviço de qualidade, mas que tem deixado muito a desejar, devido à insatisfação dos próprios condutores que não se sentem amparados e valorizados para oferecer um serviço de excelência.

Uber: Uma Inovação Disruptiva?

uber

Falamos em inovação disruptiva quando esta tem o objetivo principal de quebrar paradigmas, desbravar novos mercados e abalar a concorrência. Em outras palavras, navegar por oceanos azuis. Uma das suas principais características está pautada no atendimento à uma demanda até então pouco explorada ou à um público e mercado totalmente novos. Diante de todo o sucesso do Uber, é inegável que ela tenha incomodado bastante um mercado já existente, obtido um crescimento acima da média e gerado um buzz em todas as esferas da economia. Mas será ela realmente uma inovação disruptiva para a operação das frotas de táxis? Quanto mais eu vivencio o mercado, tenho contato com novas experiências e empresas, mais eu me convenço de que essa teoria está erroneamente sendo empregada para descrever os serviços do Uber.

Um mito vem sendo criado em torno da inovação disruptiva. É equívoco pensar que esse conceito é sobre a destruição de um mercado já existente. Na verdade, é uma concepção para definir a criação de um novo produto, para atender uma demanda nova ou inexplorada, ou seja, novas opções para mais pessoas, e esse não me parece ser o caso do Uber. O Uber não transformou não-consumidores em consumidores. Ela apenas inovou no segmento de transportes e trouxe novas perspectivas para um serviço que estava se tornando deficiente em alguns pontos, como o atendimento diferenciado, a disponibilidade e a praticidade.

Há uma diferença em inovações disruptivas e naquilo que chamamos de inovações incrementais ou de continuidade. Pense no lançamento de um modelo novo de um carro. Motor mais potente, mais econômico, melhor performance, mais conforto e um design mais arrojado, porém as funcionalidades básicas que todo carro tem, não foram alteradas, apenas sofreram um “upgrade”, mas o seu papel principal foi mantido, que é o de transportar pessoas. À essas inovações nomeamos por incrementais ou contínuas, já que não quebraram nenhum paradigma.

Neste vídeo, Clayton Christensen, professor de Administração na Harvard Business School e especialista em inovação dentro de grandes empresas, contextualiza à respeito dos conceitos da inovação disruptiva.

Disruptiva ou não, fato é que o Uber vai continuar incomodando e exercendo suas atividades, sendo uma alternativa confortável para se locomover no trânsito das grandes metrópoles e recebendo seus aportes milionários para se desenvolver e abocanhar parcelas maiores de consumidores. Seu modelo de negócio só precisa ser melhor estruturado para não cair nos mesmos gaps que já vivenciamos com as empresas de táxis e não abrir brecha para a concorrência que já bate à sua porta, só esperando um deslize ou uma lacuna nova a ser preenchida.

E você? Já teve alguma experiência diferente da convencional com o Uber?

Tags: , , ,

Deixe o seu comentário





Artigos Populares
Site desenvolvido por J2B Digital